quarta-feira, 14 de maio de 2008

Figura de corpo presente e o Acordo

Assegurar portos de escala para as naus portuguesas e espanholas que regressavam das colónias de Africa e das Américas carregadas de ouro e de especiarias, e para o descanso das tripulações e reabastecimento de mantimentos, estará na “génese” da utilização das ilhas atlânticas dos Açores como importante ponto geoestratégico a meio do Atlântico norte.

Esta necessidade evidencia-se em plena I Grande Guerra Mundial, com o desejo, conseguido, dos Estados Unidos da América, então potencia aliada da Inglaterra no conflito, estabelecerem uma base naval em P. Delgada, como forma de garantir a liberdade de navegação e o patrulhamento contra os submarinos alemãs.

Na II Grande Guerra, os Açores passam a funcionar como ponte aérea dos bombardeiros e transportes aéreos norte americanos na defesa dos comboios marítimos e na luta anti - submarina nesta área do Atlântico. Permitira-se aos britânicos a utilização dos aeródromos das Lages e de Santana, este em caso de emergência, e dos portos de P. Delgada, Angra e Horta . Aos americanos a construção e utilização de um aeroporto internacional na ilha de Stª Maria, mais tarde devolvido ao controlo português em troca de lhes serem concedidas facilidades no aeroporto das Lages.

No período que se seguiu, os Açores permaneceram como uma das áreas prioritárias para a segurança dos Estados Unidos , daí resultando a assinatura de vários “acordos” que têm proporcionado aos americanos o uso dos Ilhas para operações militares, quer sejam ou nãoefectuadas ao abrigo da Nato. Foi assim com as intervenções americanas no Afeganistão, na guerra do Golfo, na invasão do Iraque e no recente conflito entre Israel e o Líbano.
Está assim comprovada a importância dos Açores na geoestratégia mundial, importância reforçada com a pretensão dos Estados Unidos utilizarem a base aérea das Lages para treino de novos aviões de guerra e mísseis e pelo grande investimento que têm previsto para novas construções naquela base militar .

É inegável que esta presença norte americano nos Açores é boa para a nossa economia, nomeadamente para a da ilha Terceira. Dela dependem centenas de famílias que directa ou indirectamente têm os seus rendimentos assegurados, quer pela via dos salários dos cerca de 900 trabalhadores ao serviço da base ou em resultado da adjudicação de obras e da prestação de serviços diversos.

Contudo, não é menos verdade que as pretensões dos Açores são ignoradas e os nossos representantes parecem fazer papel de “corpo presente” quando das negociações para a revisão do Acordo ou quando se trata de zelar pelo seu cumprimento. Foi assim no passado e tudo indica que assim continua.

A sensação de impotência que nos é transmitida pelos responsáveis regionais quando falam do assunto, que parecem não querer dar a conhecer aquilo que não sabem, confirma-o. A recente recusa do Governo em dar explicações ao Parlamento é disso exemplo.

Seria interessante saber qual o valor dos apoios recebidos pelas Forças Armadas Portuguesas quando para os Açores não existem contrapartidas financeiras. Seria também interessante saber quais os investimentos que a FLAD - Fundação Luso Americana tem feito para o desenvolvimento dos Açores, tendo beneficiado de um fundo de 38 milhões de dólares para a sua constituição e quais as contribuições financeiras que continua a receber. Tudo isso ao abrigo de um Acordo de Cooperação entre Portugal e os Estados Unidos, que permite instalação de uma base militar americana em território da Região Autónoma dos Açores.

Cláudio Borges Almeida

Correio Açores e Diário Insular

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