domingo, 20 de janeiro de 2008

Geopolítica e Geoestrategia



A Geopolítica e Friedrich Ratzel





“Toda a vida do Estado tem as suas raízes na terra, numa terra marcada por três elementos fundamentais: a situação (Lage), o espaço (Raum) e a própria Fronteira (Grenze).”

Friedrich Ratzel


Professor Doutor Luís Manuel Vieira de Andrade
Cláudio Borges Almeida





Biografia

Friedrich Ratzel nasceu em 30 de Agosto de 1844, em Karlsruhe na Alemanha.
Filho de um chefe das ordenanças do Grão-ducado de Boden, região da Alemanha, licenciou-se em farmacêutica e Zoologia. Depois de terminar o curso na Universidade de Heidelberg, publicou, em 1869, o seu primeiro livro - um texto sobre Darwin e a Teoria da Evolução. Em 1870 alista-se nas tropas alemãs que combatem a França de Napoleão III.
Ratzel fez várias viagens que fariam dele um geógrafo (Itália, Estados Unidos da América, China). As primeiras viagens foram ao longo do Mar Mediterrâneo, sobre as quais publicou relatos no Kölnische Zeitung, jornal que lhe possibilita emprego como jornalista e repórter de turismo, obtendo, desta forma, os meios necessários para viajar pelo mundo.
Em 1874 Ratzel desloca-se aos Estados Unidos e México numa viagem decisiva para a carreira deste intelectual alemã. Dedica-se ao estudo da colonização alemã nos Estados Unidos e no resto da América do Norte, especialmente na região centro – oeste do continente, chegando à conclusão que [1]“o homem vivia sujeito às leis da natureza com propagação das ideias deterministas”. Ratzel salientava a existência de uma grande influência do meio natural sobre o homem.
É na sequência daquela visita que são publicados os seus dois grandes trabalhos de cariz geográfico: “Quadros das cidades e da civilização norte-americanas” (1874) e “Os Estados Unidos do Norte da América” (1878-80)
Antes, em 1868, já havia publicado “O Ser e o Devir no Mundo Orgânico”, e mais tarde “Quadros da Guerra com a França”, no qual relata a campanha militar alemã na guerra de 1870/71com a França.
Em 1875 regressa à Alemanha e torna-se professor de Geografia na Universidade de Munique, sendo mais tarde promovido a professor com “livre - docência”.
A acção e o pensamento de Ratzel insere-se, plenamente, no contexto fortemente nacionalista da sua época, envolvendo-se, apaixonadamente, nos debates sobre o papel da Alemanha no mundo.
Em 1882 é publicada a obra “Antropogeografia”, abordando a evolução dos povos da Terra, as relações entre a civilização e aspectos de natureza demográfica e os métodos de representação cartográfico das deslocações humana, e, em 1897, “Politische Geographie” (Geografia Política), na qual relata a geografia dos Estados, do comércio e da guerra, que mais tarde, no início do século XX, vem a servir de inspiração ao cientista político sueco Rudolf Kjellén, no surgimento do termo "Geopolítica".
Friedrich Ratzel é considerado o fundador da Geopolítica Alemã.
Ratzel morre no dia nove de Agosto de 1904 na cidade alemã de Ammerland. Após a sua morte as suas obras influenciaram uma série de autores que lhe sucederam, como Rudolf Kjellén, Karl Haushofer e Mackinder.





Contexto Histórico


Friedrich Ratzel viveu numa época atribulada da Alemanha.
Ratzel desenvolve o seu pensamento num contexto nacional e internacional muito próprio, em que a Alemanha, liderada por Bismarck, unificava-se como Estado e assume-se como potência mundial.
Filosoficamente, [2]“a Alemanha era a síntese do primado da razão de Kant, do determinismo e materialismo histórico de Hegel e do romantismo místico e nacionalista de Herder, Fichte e Treitschke”.
Se durante aquele período o poder ficara nas mãos dos “junkers” - grandes proprietários das terras (representantes da ordem feudal) e disperso pelas várias unidades confederadas, com a tardia adopção das novas medidas capitalistas condicionava-se o desenvolvimento económico, social e político da Alemanha, em contraste com os países mais desenvolvidos da época.
É com a vitória da Prússia sobre a Áustria, na Guerra Austro – Prussiana, que a Prússia se torna a potência hegemónica na Alemanha. A fase seguinte consistiria em fazer com que outros estados aderissem ao seu projecto de guerra contra a França por esta se opor à integração dos Estados do sul na unificação e formação do novo país. Conseguiu-o plenamente, também derrotando a França e Napoleão III. O chanceler prussiano Bismarck inicia, assim, o processo de unificação da Alemanha
Com os novos ideais nacionalistas que se espalhavam por toda a Europa e com a afirmação dos Estados e dos Impérios coloniais, as características do novo Estado Alemão, ou seja, uma organização militarizada da sociedade e do Estado herdada da Prússia e um expansionismo latente, podem ser explicadas pela situação da Alemanha no contexto europeu. Isto é, o país emerge como mais uma unidade do capitalismo, só que sem a presença de colónias, há semelhança da França, Holanda, Inglaterra e mesmo Portugal, em que estes eram detentores de impérios coloniais. Desta forma, havia uma necessidade de expansionismo à medida que procedesse ao seu desenvolvimento interno.
A deterioração do Estado é maior quando a Alemanha sufoca nas suas fronteiras, sem espaço para se expandir e para “respirar”. Rodeada por território já habitado, a Alemanha sente a falta de terras, de recursos de mercado e de matérias-primas. Contudo, também receia pela sua vulnerabilidade. A crise económica verificada em 1873, após a vitória sobre a França de Napoleão, faz nascer a ambição de procurar espaços para se expandir.
O capitalismo alemão carecia de soluções práticas. Havia a necessidade de recorrer à geografia como forma de resolver o problema.









A Geopolítica


A Geopolítica é uma disciplina das Ciências Humanas que articula a Ciência Política com a Geografia. Considera o papel político internacional que os Estados desempenham em função das suas características geográficas - a localização, o território, a posse dos recursos naturais e o contingente populacional. É o estudo da estratégia, da manipulação, da acção. Estuda o Estado enquanto organismo geográfico, ou seja, é o “estudo da relação intrínseca entre a geografia e o poder ”. É o método de análise que utiliza os conhecimentos da geografia física e humana para orientar a acção política do Estado.
A Geopolítica é a ciência feita na decorrência das condições geográficas, o que é um verdadeiro paradigma da disciplina que nasceu historicamente do ramo da política.
Foi Rudolf Kjellen quem, pela primeira vez, deu o nome de geopolítica como uma parte política.
O Estabelecimento de conexões da geografia política vem desde a Antiguidade Clássica. Na Grécia Antiga, as observações produzidas por diversos pensadores não tiveram qualquer intenção teorizante sobre o assunto. Eram de carácter casual e intuitivo. É naquelas observações que podemos integrar algumas relações ambientais produzidas por Platão, Aristóteles e Heródoto, desligadas da “acção” e do “devir”. Alexandre da Macedónia recorre à geografia no reconhecimento das terras mal conhecidas para avaliar as possibilidades de sustentação dos exércitos e a natureza da administração e implementação. A geografia passa a ter uma utilização minuciosa no sentido estratégico do Estado e ao serviço da própria política. Estrabão afirmava que [3]“a geografia é obra política mais do que cientifica. Deve servir os interesses dos governantes. Também se deve ligar as particularidades físicas e atmosféricas que explicam em parte a vida e o comportamento dos habitantes, bem como os recursos económicos, os modos de vida, as tradições ancestrais e os usos e costumes que revelam muitas vezes os acasos da existência”.
A geografia desenvolveu-se a partir dos descobrimentos marítimos portugueses e espanhóis e o mundo ficou a ser mais conhecido. Conquistaram-se territórios em África, na Índia e nas Américas. Instalaram-se pontos chaves estrategicamente posicionados para a defesa e controlo do comércio marítimo com esses novos mundos. Desenvolveu-se uma política expansionista. A geografia passa a constituir um verdadeiro saber ao serviço dos governantes e do poder.







O Pensamento de Ratzel

Nos finais do século XIX, a escola alemã de geopolítica tem em Friedrich Ratzel o seu grande mentor. Para analisar a filosofia de Ratzel é necessário estudar o [4]contexto histórico da época em que se insere. Tem por base o nacionalismo da época.
O pensamento de Ratzel assenta em [5]“ O Estado como organismo ligado ao solo” (…), “A vida da humanidade sobre a terra parece-se com a de um ser vivo: avança, recua, retrai-se, engendra novas relações, desfaz as antigas, tudo isto segundo modelos que se assemelham aos que tomam forma nas outras espécies vivas.”
Para Ratzel a Alemanha deve ter uma política mundial. Deve criar um Império colonial à medida das suas ambições - [6]“para que uma potência seja mundial, convêm que esteja presente em todas as partes do universo conhecido e designadamente em todos os lugares estratégicos. Estamos no tempo do congresso de Berlim de 1885, onde as potências partilharam as colónias em África”.
Existindo a necessidade de encontrar um caminho para resolver o problema da Alemanha, Ratzel querendo responder aos líderes alemãs decepcionados com os geógrafos universais propõe-lhes uma solução. A ciência política e a geografia devem ser coadjuvantes por forma a lançar uma base sólida na procura do [7]“espaço vital” para a Alemanha.
O Espaço (Raum) é a noção chave que inspira os desígnios e as políticas do Estado Alemão. [8]“O Estado vive como um organismo vivo. Ele nasce, cresce e desenvolve-se, atinge a sua maturidade antes de envelhecer e morrer”. E tal como o ser vivo o Estado também entra em conflito para tirar melhor proveito dos recursos limitados.
Para que o Estado “cresça e desenvolva-se”, atingindo a sua perfeição e os seus objectivos essenciais para a sua sobrevivência, [9] Ratzel considera fundamental ter em conta os seguintes elementos:
1. A Expansão do Estado aumenta com avanço da Cultura;
2. O aumento do espacial dos Estados acompanha diversas manifestações do seu desenvolvimento:
a) Ideologia;
b) Produção
c) Actividade comercial;
d) Poder da sua influência e do seu esforço no que diz respeito ao proselitismo:
3. Os Estados estendem-se assimilando ou absorvendo as unidades políticas de menor importância;
4. A fronteira é um órgão situado na periferia do Estado – Através deste alargamento ele materializa o crescimento, as forças e as mudanças territoriais;
5. Ao proceder á sua extensão espacial, o Estado esforça-se para absorver regiões importantes para o seu desígnio, como por exemplo o litoral dos estuários fluviais, as planícies e os territórios mais ricos (termos de produção).
6. É do exterior que vem o primeiro impulso levando o Estado para a extensão de território movido por uma civilização inferior a sua;
7. A tendência geral é a assimilação ou absorção das nações mais fracas, convida a multiplicar as apropriações de territórios num movimento que parece com a auto-alimentação.









Considerações finais

Para se analisar o pensamento de Ratzel é essencial ter uma visão histórica da época em que viveu.
Ratzel, ao defender a ideia de um Império Colonial Alemão tem presente a fase atribulada da história alemã, que levara à sua unificação, fazendo-a perder poder político, económico e social no mundo, ao contrário de países europeus com uma política expansionista, como a França, Grã-Bretanha e Holanda. Por isso, era essencial apreender de maneira “cientifica” o seu próprio país e identificar as “leis objectivas” para o seu desenvolvimento geográfico.
No pensamento do geógrafo alemão, o “Estado sofre as mesmas influencias que qualquer forma de vida”. O Estado deve desenvolver-se no espaço e enraizar-se para se afirmar e subsistir. O domínio dos recursos naturais e das matérias-primas é fundamental. É da natureza dos Estados desenvolverem-se e entrarem em competição com os Estados vizinhos. A disputa do território e a permanente alteração das fronteiras é desejável e vista com naturalidade.
Ratzel apresenta-se como um determinista nato, que tem por princípio a sujeição do Homem às condições geográficas presentes no seu território, vedando-lhe a possibilidade de poder alterar a geografia. Contrariamente a esta tese, os possibilistas, defendem a teoria de que o Homem tem capacidades de alterar a geografia e as dificuldades provenientes dela. Grandes obras, como o canal do Panamá ou o do Suez, são exemplo dessa capacidade.
A par de importantes nomes como Rudolf Kjellen e Karl Haushofer, que contribuíram para o desenvolvimento da Escola de Geopolítica alemã, a principal teoria que prevalece é a de Friedrich Ratzel, defendendo que “[10]os Estados se encontravam envolvidos numa contínua luta pelo espaço físico”.
É nesta perspectiva que a Geopolítica coloca como ponto crucial o poder nacional e o controlo do território, levando a que as políticas mais hábeis projectem a longa distância das suas capacidades de intervenção.
Nos nossos dias, a Geopolítica - a relação entre a geografia e o poder – está na capacidade de transferir, de um ponto para o outro, bens, serviços e informação de forma cada vez mais rápida e eficiente.










BIBLIOGRAFIA:

· ANDRADE, Luís Manuel Vieira – Apontamentos da Aula de Geopolítica e Geoestratégia, leccionada pelo Prof. Doutor Luís Andrade.

· DEFARGES, Philippe Moreau. – “Introdução à geopolítica”, Gradiva – Fevereiro de 2003.

· DOUGHERTY, James E. / PFALTZGRAFF, Robert L. – RELAÇÔES INTERNACIONAIS As Teorias em Confronto – Gradiva 2003.

· Enciclopédia VERBO – Luso Brasileira da Cultura – 9º edição Sc. XXI

· http://www.faed.udesc.br/petgeo/Contexto/Artigos/Artigo%20Thiago.htm

· http://maltez.info/Textos/das_teias_da_geopolitica.htm

· http://www.jornaldefesa.com.pt/conteudos/view_txt.asp?id=373

· http://www.gradiva.pt/capitulo.asp?L=3056





Índice

Biografia--------------------------------------------------------------------------------2

Contexto Histórico--------------------------------------------------------------------4

A Geopolítica--------------------------------------------------------------------------5

O Pensamento de Ratzel-------------------------------------------------------------8

Considerações finais----------------------------------------------------------------11

BIBLIOGRAFIA--------------------------------------------------------------------13

Índice-----------------------------------------------------------------------------------14

[1] ANDRADE, Luís Manuel Vieira – Apontamentos da Aula de Geopolítica e Geoestratégia, leccionada pelo Prof. Doutor Luís Andrade.
[2] Citação do Prof. José Adelino Maltez em: jornal da defesa – www.jornaldedefesa.com.pt
[3] ANDRADE, Luís Manuel Vieira – Apontamentos da Aula de Geopolítica e Geoestratégia, leccionada pelo Prof. Doutor Luís Andrade.
[4] Ver contexto histórico
[5] DEFARGES, Philippe Moreau. – “Introdução à geopolítica”, Gradiva – Fevereiro de 2003, p.73
[6] ANDRADE, Luís Manuel Vieira – Apontamentos da Aula de Geopolítica e Geoestratégia, leccionada pelo Prof. Doutor Luís Andrade.
[7] O Estado, na geopolítica alemã, é visto como um organismo vivo que como qualquer ser vivo necessita de um Espaço Vital para a sua sobrevivência: onde possa alimentar-se, sobreviver e crescer.
[8] Estado/Organismo Vivo – Pensamento de Ratzel
[9] 7 Leis, que Ratzel utiliza, para a justificação da expansão do Estado.
[10] DOUGHERTY, James E. / PFALTZGRAFF, Robert L. – RELAÇÔES INTERNACIONAIS As Teorias em Confronto – Gradiva 2003 p195

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2 Comentários:

Às 15 de março de 2009 15:52 , Blogger Dokinha asuhua disse...

Muito bem resumido gostei :D

 
Às 15 de outubro de 2009 08:24 , Blogger Marcelo disse...

Sou aluno do curso de geografia do uni-bh no Brasil.
Gostei muito do texto, estou estudando isso no sexto periodo do curso.
Muito bom.

 

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